India - International Relations
China, Índia e a estabilidade na Ásia
Sandra Cardozo argumenta que uma maior aproximação entre os dois países é crucial e cita, como exemplo, as posições coincidentes de China e Índia na luta contra o terrorismo e na condenação da intervenção norte-americana no Iraque. De Campinas.
A dimensão adquirida nas últimas décadas por China e Índia como potências emergentes e o posicionamento dos dois países no continente asiático devem ser compreendidos não somente através de análises de cada país em específico, mas à luz das relações sino-indianas, uma vez que a estabilidade regional está fortemente relacionada a este fator. Inicialmente, é preciso observar que tanto a China quanto a Índia passaram por transformações incisivas que direcionaram suas políticas internas e externas durante a segunda metade do século XX. A independência da Índia, em 1947, e a proclamação da República Popular da China, em 1949, marcaram profundamente a história recente de ambos os países.
Jawaharlal Nehru, Primeiro Ministro da Índia (1947-1964), tomou a atitude de reconhecer e estabelecer relações diplomáticas com a China, logo após a revolução comunista, que ocorreu formalmente em 1950, permitindo à Índia ser o primeiro país não-socialista a assumir tal condição. Vários fatores propiciaram este estreitamento como, por exemplo, a trajetória de ambos contra intervenções estrangeiras em seus territórios. Concretamente, o apoio de Nehru ao governo da RPC (República Popular da China) se manifestou na não concordância da transferência da representação chinesa na ONU e do assento permanente do Conselho de Segurança para Taiwan. Na ocasião, o governo da Índia sustentou que a representatividade pertencia à República Popular Chinesa. Suporte semelhante foi dado pela Índia à China na Guerra da Coréia e na intervenção da França na Indochina. Nas relações entre China e Índia, no período inicial do governo de Nehru, acordos foram estabelecidos e apoios mútuos, articulados. Contudo, a proximidade não se manteve e conflitos eclodiram nas relações bilaterais, acarretando um esfriamento diplomático. O ápice foi em 1962, quando uma guerra por questões fronteiriças no Himalaia, deixou a Índia traumatizada.
O conflito com a China em 1962 abriu espaço para a aspiração indiana de conduzir o movimento dos Países Não-Alinhados, em que a Índia se tornou porta-voz do mundo asiático, árabe e africano. Com a deterioração das relações sino-russas, a URSS se tornou uma aliada indiana, inclusive com suporte de armamento. A supremacia das duas superpotências na época da Guerra Fria, EUA e URSS, exigiu dos governantes da Índia manter um balanceamento, reconhecendo a dependência que se tinha desses países; entretanto as relações entre Índia e Estados Unidos ficaram abaladas pelo apoio e alianças norte-americanas com o Paquistão. Estes fatores externos, aliados a motivações de políticas domésticas, levaram ao desenvolvimento de testes nucleares em 1974, no governo de Indira Gandhi.
O conflito com a China em 1962 abriu espaço para a aspiração indiana de conduzir o movimento dos Países Não-Alinhados.
Aos Estados Unidos, na região, coube o papel de contenção do comunismo. Neste contexto, o Paquistão aderiu a acordos norte-americanos de segurança. O apoio dos EUA ao Paquistão também ocorreu em 1971, na guerra de Bangladesh. Na balança de poder regional, a China estreitou relações com Paquistão e se aproximou dos EUA. No mesmo ano de 1971, a China foi admitida na ONU e ocorreu a histórica visita de Nixon ao país. A estratégia de alinhamento sino-americano contra a URSS tornou-se mais saliente a partir da invasão soviética no Afeganistão, em 1979.
Mudando a página da balança de poder regional do período da Guerra Fria e passando para o final do século XX, China e Índia passaram a despontar como potências em ascensão no início do século XXI. O elevado crescimento econômico e a categoria de potências nucleares associam-se ao relevante papel destes países no cenário internacional. O destaque evidenciado tanto pela Índia quanto pela China nos últimos anos deve-se em grande parte ao peso destes países na economia mundial. Há uma clara demarcação tanto para a China, com reformas empreendidas por Deng Xiaoping a partir de 1978, quanto para a Índia, com reformas liberalizantes efetivadas a partir de 1991 no Governo de Narashima Rao, para as condições atuais.
Nos anos mais recentes, o termo ‘ascensão pacífica’ - peaceful rise - passou a expressar a concepção dos líderes chineses sobre a política da China na ordem global. Traduzida numa política externa pacífica independente, ela busca, como demonstram os discursos oficiais, promover um alargamento das relações da China com outros países, permitindo trocas e cooperação dentro do princípio de equidade e benefícios mútuos. Paz e estabilidade, paz e seguridade, coexistência pacífica, também são termos oficialmente utilizados para descrever a política internacional da China.
O termo ‘ascensão pacífica’ - peaceful rise - passou a expressar a concepção dos líderes chineses sobre a política da China na ordem global.
Na esfera regional, a promoção da uma ascensão chinesa pode repercutir nas relações sino-indianas, devido ao histórico conflito. A Índia sempre viu a assistência nuclear e de mísseis da China ao Paquistão como forma de contenção indiana e mantém a visão de que a relação sino-paquistanesa tem continuado substancialmente, mesmo após a Guerra Fria. A condução dos testes nucleares indianos em 1998 também é um ponto de conflito, pois, para a China, a decisão indiana foi contra os esforços internacionais de não-proliferação nuclear. As declarações do Primeiro Ministro indiano A. B. Vajpayee, logo após os testes nucleares de 1998, de que a China era a principal ameaça, demonstram elementos divergentes entre os dois países.
Embora exista pouca cooperação entre China e Índia, ambos demarcam posições coincidentes na luta contra o terrorismo e na condenação da intervenção norte-americana ao Iraque, por exemplo. Em 2003, a visita de A. B. Vajpayee à China demarcou uma reaproximação. Em declaração conjunta, as autoridades ressaltaram a necessidade da manutenção da paz e estabilidade na Ásia e o fortalecimento da multipolaridade no cenário internacional. Em 2006, durante a visita de Hu Jintao à Índia, os líderes explicitaram a necessidade de cooperação mútua.
Análises prospectivas reconhecem a relevância dessa aproximação, bem como da ascensão de Índia e China. Nestas percepções, toma destaque a ênfase na necessidade de estreitar relações de forma positiva, revelando neste fato a estabilidade regional a partir de um entendimento mútuo.
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