India - Culture
A Índia que o Brasil vê na TV
Adriana Del Ré fala das novelas brasileiras com enredos relacionados à Índia e à China. Para ela, as novelas são um dos mais fortes instrumentos culturais do Brasil e levam ao povo um pouco mais sobre estes países ainda tão distantes. De São Paulo.
A sensação é de Vale a Pena Ver de Novo. Quem não se lembra da onda “italianês” que se abateu sobre os lares brasileiros quando os atores das novelas Terra Nostra e Esperança, da Rede Globo, abusavam do sotaque macarrônico – que mais os fazia parecer oriundos da Mooca -, em diálogos que se resumiam a “é vero”, “eco!” e “amore mio”?
Agora, a febre vem de outro continente. E de outra novela. Caminho das Índias, de Gloria Perez, anda abastecendo o vocabulário cotidiano dos noveleiros com expressões tipicamente hindi. E convenhamos: de tanto o núcleo indiano do folhetim repeti-las a todo instante, dá até para arriscar entender as palavras só pelo contexto. Se bem que o Opash interpretado por Tony Ramos costuma emendar original e tradução quando maldiz as firanghis-estrangeiras que atravessaram o caminho de seus filhos.
Capítulo sim, capítulo não, a matriarca Laksmi, personagem da ótima Laura Cardoso, inferniza a vida das mulheres da casa, entre comentários venenosos e pedidos de seu chai (pronuncia-se tchai), uma bebida tradicional feita à base de infusão de chá verde, com cravo, canela, pimenta branca e outros ingredientes. E ai se uma delas não lhe preparar o chai ao seu gosto. A sonsa Maya, de Juliana Paes, demonstra seu espírito subserviente entre tiks (sim) e atchás (tudo bem). E em situações de desespero, a solução é clamar aos céus e soltar um sonoro “are baba” (ô meu Deus!).
Momento de divagação. Ok, a Índia parece ser uma filial da Torre de Babel: o hindi e o inglês são os idiomas oficiais, sem contar as centenas de dialetos regionais. Mas o que é aquele bando de indianos falando português e vivendo na ponte aérea Nova Deli-Rio-Nova Deli? A licença poética do folhetim explica tudo. Além disso, não teria sentido Gloria Perez colocar seus personagens para falar hindi ou algum dialeto local, full time, acompanhados de legenda.
Não teria sentido Gloria Perez colocar seus personagens para falar hindi ou algum dialeto local, full time, acompanhados de legenda.
A questão linguística, entretanto, não deve estar no cerne das prioridades da autora em sua incursão particular pelo mundo indiano. Antes de avançar em suas reais intenções, vale aqui um parênteses: não há como negar que a novelista teve visão e sensibilidade o suficiente para perceber que a Índia é o país do momento, como uma das economias que mais cresce no mundo. O mesmo vale para a China, atual potência econômica, que também serviu como argumento para outra novela global, Negócio da China, de Miguel Falabella, mas não aprofundada como acontece em Caminho das Índias. Mas isso é assunto para ser retomado um pouco mais à frente.
Voltando à novela de Gloria Perez, ponto para o capricho dela e sua equipe na recriação da cultura e dos costumes do povo indiano. A relação entre pais e filhos, o casamento arranjado, a forte religiosidade, as superstições, a beleza dos figurinos, as festas e a música encabeçam a lista de temas recorrentes na trama. Alguns capítulos acabam se tornando aulas básicas sobre esses temas, resvalando no didático a partir do momento que os atores, na pele de indianos, explicam o significado das coisas. É certo que essas “lições” podem não soar naturais, já que estão ali justamente para instruir o telespectador com pouco conhecimento sobre aquele país. Um artifício para que as ações e reações dos personagens tenham um embasamento plausível, ao menos, para o povo que representam.
Há outros aspectos interessantes trazidos à tona, como o sistema de castas, que impõe as diferenças sociais entre indianos e é contextualizada na novela através do antagonismo entre os personagens Raj (Rodrigo Lombardi) e Bahuan (Marcio Garcia), respectivamente um homem de casta e um dalit (intocável, impuro). Muitas vezes de verossimilhança duvidosa, Caminho das Índias também consegue colecionar méritos e se não é uma aula completa, ao menos, aguça a curiosidade de quem quer saber mais sobre a Índia e seu povo. Diferente do que aconteceu com Negócio da China, novela das 6 que recentemente foi substituída no horário pela novela Paraíso. O folhetim de Falabella estreou com a promessa de levar ao público brasileiro um pouco sobre a cultura chinesa. No final das contas, ninguém entendeu nada. A China até serviu de cenário para os primeiros capítulos. Foi lá que o chinês Liu Chuang deu um golpe de $ 1 bilhão de euros em um cassino e armazenou as informações em um pen-drive, que chegou ao Brasil através de dois portugueses desavisados, mãe e filho.
Quando aterrissaram no Rio, ambos foram morar no bairro fictício Parque das Nações e teve início uma corrida pelo pen-drive. No meio dessa busca insana pela fortuna, a China apareceu no kung fu e numa pseudomáfia, mas também se perdeu numa história sem sentido. Na reta final da novela, que chegou ao fim em março, o que se viu foi uma constrangedora cena de luta de kung fu entre vilões e mocinhos numa praça pública. Decerto que as já famosas dancinhas dos indianos no meio da sala em Caminho das Índias não são nenhuma sacada genial, mas, certamente, são muito mais divertidas.