China - Culture
A gastronomia dinástica chinesa
Du I mostra que estudar todas as influências dos 2.000 anos de dinastias na gastronomia chinesa pode resultar em um delicioso livro de receitas, recheado de cultura e história. De São Paulo.
Hoje em dia tanto se fala da Dinastia Ming, da Dinastia Tang, da Dinastia Qin - referências de períodos históricos importantíssimos da China. Mas o que elas têm a ver com o nosso dia-a-dia? Invarialmente, muito. Pelo menos para mim, pois sou uma chinesa que mantenho muitos dos meus costumes, inclusive os alimentares, mesmo morando longe da China há 20 anos.
O período das dinastias, também denominado como China Dinástica, durou 2 mil anos e deu origem às maiores preciosidades culturais e técnicas do país e até mesmo do mundo. Papel, pólvora, porcelana e a própria escrita chinesa são os exemplos mais comuns. Mas a herança gastronômica é o tesouro mais bem guardado, pois se formou ao longos dos anos, em contextos muito diferentes, e foi utilizada por motivos medicinais, religiosos, filosóficos, poéticos e, claro, políticos. O resultado disso fez da gastronomia chinesa uma das mais ricas do mundo, com mais de 10 mil pratos, de 20 cozinhas regionais.
Segundo especialistas estrangeiros, o segredo do sabor dos pratos está nas combinações dos ingredientes utilizados, e estes sempre foram muito variados, devido à grandeza territorial, à variação climática e à ausência de preconceito dos chineses para aproveitar, literalmente, tudo o que pudesse ser levado à boca. Vale lembrar que este último fator foi originado de fome, pobreza e guerras pelas quais o povo passou. Acredito que deixando tabus alimentares de lado, as refeições chinesas necessitavam de inventividade em dobro. Falar de todas as influências das dinastias na gastronomia pode resultar em um delicioso livro de receitas recheadas de cultura e história. Por isso, escolhi “apenas” duas histórias de pratos típicos de duas dinastias distantes, para usar como exemplo da democracia que a culinária chinesa representa.
Um prato que marcou história pelo modo curioso como foi adicionado ao cardápio imperial foi a Sopa de Pérola com Pedra de Jade Branco.
A organizada, estável e desenvolvida dinastia Ming começou com um fundador nada convencional. De origem humilde, Zhu Yuan Zhang sofreu, quando era jovem, um ataque na sua vila e, fugindo da perseguição, passou fome, chegando até a desmaiar na rua. Acudido por uma senhora que logo lhe preparou uma sopa com sobras do que tinha lhe restado, um pouco de espinafre e tofu, Zhu tomou a sopa e logo perguntou à velha o que ele estava tomando. Muito humildemente, ela respondeu com um sorriso: "É uma Sopa de Pérola com Pedra de Jade Branco".
Passados alguns anos, Zhu entrou para a carreira militar e se destacou grandemente, tornando-se fundador da Dinastia Ming. Muitos eram seus feitos: o Grande Canal, a Grande Muralha e a construção da Cidade Proibida. Quando seu império estava estável e Zhu já tinha experimentado tudo que a vida lhe oferecia de bom na vida, ele veio a adoecer. Nada despertava o seu apetite, até se lembrar daquela sopa incrível que tomara quando jovem. Procurou pela senhora autora da sopa, mas como não a encontrou em lugar nenhum, mandou seus cozinheiros reais lhe servirem. Mesmo com os melhores ingredientes, o sabor não chegava perto daquele tomado quando ele estava passando necessidade. Isso me faz lembrar que além do que comemos, o momento em que comemos é um ingrediente muito importante também.
Man Han Quan Xi
Outro prato que marcou história, desta vez pelo seu contexto e grandeza foi o Man Han Quan Xi, algo como “Festa da Culinária Completa dos Man (etnia Manchu) e Han (etnia Han)”. Só pelo nome, já podemos associá-lo à um banquete. Este surgiu durante a Dinastia Qing, quando a etnia Manchu (Man) do norte da China se fortaleceu e tomou o poder, dominando a etnia Han, que era a mais populosa do país. Pouco a pouco, todo o país foi unificado e tornou-se muito próspero. Até então, o banquete com os pratos típicos das duas etnias eram servidos separadamente. Uma estratégia de juntar os costumes dos Man e Han era misturar seus costumes, e o decreto de server o banquete Man Han Quan Xi foi adotada após os Man tomarem o poder supremo em Beijing.
Na tentativa de unificar os dois principais grupos étnicos, o imperador Qing ordenou que os dois deveriam viver, trabalhar e comer juntos.
Para reduzir a resistência social ao fato que era prejudicial ter uma população dominantemente Han, os governantes Man se esforçaram para incentivar a integração entre as duas culturas em todos os aspectos. Foi um trabalho de décadas, que só fez bem para a disseminação da culinária de ambas as etnias. No menu do banquete da Festa, encontravam-se delícias do mar e da terra, os melhores cogumelos e funghis, produtos agrícolas e frutas bem selecionados - apenas os melhores materiais eram colhidos. Leitões com padrão de 12 a 13 quilos eram engordados com mingau três a quatro dias antes do abate do porco. Além da comida em si, toda a decoração, os rituais e a etiqueta eram exigidos de todos aqueles que participassem. Tamanha a quantidade de comida e a formalidade do banquete, que era preciso de um a três dias inteiros para terminar. Um processo complexo e bem interessante, que não é mais feito nos dias de hoje, era que, durante as refeições, havia muito tempo para apreciar os chás servidos entre um prato e outro, dando oportunidade para os Man e Han interagirem. Hoje, Man Han Quan Xi é uma expressão que caiu na boca do povo, quando alguém quer dizer que comeu muito bem. Se você quiser experimentar um dia, o Restaurante FangShan em Beijing, na WenJing Road, serve este banquete de forma mais singela, tentando relembrar a grandeza da Dinastia Ming.
Sejam pratos simples, dignos de dar à um mendigo desmaiado, ou pratos elaboradíssimos, para políticos de grande importância, a gastronomia chinesa não faz feio em momento algum. Vale experimentar este mundo de sabores, texturas, cores e formas. Bom apetite!