Marcus Benedicto se utiliza das polêmicas declarações do astro de Hong Kong, Jackie Chan, para refletir sobre as liberdades postas, impostas ou restringidas ao povo chinês. De alguma maneira, todos querem se fazer ouvir. De São Paulo.
A população da China tem como costume manter laços de adoração bastante fortes com suas celebridades. Entre elas, esportistas como o jogador de basquete Yao Ming (capaz de fazer do esporte um dos mais populares no país) e o atleta medalhista de ouro olímpico em Atenas, Liu Xiang.
Há também atores, cantores, dançarinas...aqueles que conseguem se destacar em meio aos seus milhões de conterrâneos recebem todos os tipos de holofotes, fazem todas as propagandas, estão em todos os outdoors, viram verdadeiros porta-vozes perante a população chinesa. De alguma maneira, parece que conseguem se fazer ouvir.
Uma das celebridades que mais se encaixa nesse perfil é o ator Jackie Chan, adorado pelos chineses e bastante conhecido no Ocidente. Na China, faz diversos comerciais (inclusive com seu filho); em Hong Kong, não só tem uma estrela com o seu nome na calçada da fama local, como mantém, no mesmo lugar, uma loja repleta de produtos seus. Apenas alguns exemplos da sua importância por lá.
Justamente por essa questão, um fato ocorrido ainda em abril chama a atenção. Chan participava do Fórum Boao, evento chinês equivalente a Davos, juntamente com empresários quando, em uma conversa, disse: “Começo a achar que os chineses precisam ser controlados. Não estou certo se é bom ter liberdade. Se ninguém nos controla, cada um faz o que quer”.
O ator foi além e afirmou que Taiwan e Hong Kong (onde ele nasceu) "viraram um caos após terem mais liberdade".
Quando questões como democracia e censura foram colocadas em pauta, o ator foi além e afirmou que Taiwan e Hong Kong (onde ele nasceu) "viraram um caos após terem mais liberdade". É importante lembrar que nos locais citados há, respectivamente, eleições presidenciais e legislativas.
As declarações de Chan receberam os aplausos dos empresários presentes e serviram de entrada para as entrevistas de políticos que lá estavam, mais tarde.
Causa certa estranheza que uma celebridade desse porte, nascida em Hong Kong e construída no Ocidente, seja tão próxima do governo chinês e adote uma postura tão contundentemente a favor do sistema em vigor.
Por outro lado, observando a história da China, é possível encontrar um fundo de razão nas declarações de Chan. Desde que a primeira dinastia, Xia, conseguiu unificar os reinos espalhados pelo vasto território chinês, essa tem sido a melhor, senão a única maneira de manter uma população tão grande e heterogênea sob um mesmo posicionamento político.
Dentro desse ponto de vista, o Partido Comunista é enxergado por muitos como uma nova dinastia e, por tudo isso, essa “necessidade” de controle parece ter se tornado uma característica cultural chinesa e que aparentemente funciona bem, a ponto de fazer com que a China cresça de maneira sólida.
Chan, porém, nem de longe conseguiu ser unanimidade. Acadêmicos prontamente se posicionaram contra as declarações, assim como vozes vindas de Taiwan (que logo o destituiu da função de embaixador das Olimpíadas de Verão para Deficientes Auditivos de 2009) e Hong Kong (que anunciou estar reavaliando o papel de Chan como seu mais importante porta-voz). Ignorância e racismo, entre outros termos, foram associados ao ator. Também houve manifestações na China. Inclusive em veículos do Partido Comunista, pessoas se posicionaram contra o que foi dito. O astro, muitos diziam, não soube se colocar no lugar da população mais humilde.
Paralelamente a essa discussão, outra manchete chama a atenção. O diretor do principal instituto de opinião da China, Victor Yuan, em entrevista à Folha de S. Paulo, disse que "os chineses querem deixar de ser olhados de cima e ouvir sermões do Ocidente sobre democracia e direitos humanos".
O curioso é que, às vésperas do aniversário de um dos episódios mais polêmicos da história da China, os eventos ocorridos em 4 de junho de 1989 na Praça da Paz Celestial, meios de comunicação justamente voltados para a opinião, como o Twitter, o Youtube e blogs, entre outros, foram bloqueados no país. Pedir que o Ocidente deixe de tomar posicionamentos no lugar da China e impedir que a própria população o faça é uma das mais graves contradições nas quais um país pode cair.
A questão toda, que realmente conseguiu mobilizar a China, precisa ser enxergada de maneira mais ampla. É sobre ter ou não liberdade, e liberdade significa poder de escolha. É necessário apurar até que ponto se estende a questão cultural. Os chineses precisam ter, ao menos, a possibilidade de escolher ser querem ou não viver sob algum tipo de controle, por mais que um dos maiores argumentos contrários é de que grande parte da população não tem educação ou preparo para tal. Essa discussão poderia ser o início de um processo por meio do qual os chineses realmente possam dar voz às suas vontades.
É sobre ter ou não liberdade, e liberdade significa poder de escolha. É necessário apurar até que ponto se estende a questão cultural.
Xing Ling?
Eu havia antecipado o tema, há algum tempo, aqui no Watershed e, agora, aparece estampado na edição de junho da revista Info Exame: “O fenômeno Xing Ling”, abaixo da imagem de um “HiPhone”. Trata-se de uma matéria que fala como os produtos eletrônicos de marcas chinesas, na maioria das vezes cópias de produtos famosos, estão cada vez mais ganhando espaço.
O texto traz dados interessantes e aponta para questões como o mercado consumidor e o incentivo do governo às cidades, além da mão-de-obra barata, para atrair empresas de eletrônicos para a China. Mas derrapa em um grande número de citações estereotipadas.
O grande problema, aqui, é que os fabricantes chineses, assim como o governo, agem de maneira errada ao não estabelecerem limites para a cópia e, principalmente, ao não classificarem certos produtos como linhas inferiores. Repito: o “Xing Ling” (expressão, no mínimo, ignorante) é o novo “paraguaio”.
Zàijiàn!
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