China - Culture
O Omegle e a chinesa de 17 anos
Marcus Benedicto mostra como a internet ajuda a entender a China. Passando das redes sociais até sites como o Omegle, ele discute a questão da liberdade de expressão e vê os chineses restringidos em suas formas de comunicação. De São Paulo.
É bastante interessante notar como a internet, cada vez mais, oferece meios de interligar o mundo. A comunicação com qualquer pessoa ao redor do planeta, hoje, é tão fácil, imediata e de tamanha abundância que, não raro, opções acabam passando despercebidas.
O principal termo no que diz respeito à comunicação on-line, hoje, são as tão faladas redes sociais. Começando pelo fenômeno (verdade que, praticamente, apenas no Brasil e na Índia) Orkut, passando pelo campeão de perfis Facebook e o mais interessante deles, o Twitter, as alternativas apenas parecem crescer, assim como as possibilidades.
Falo sobre essa questão para chegar a um site que encontrei ainda no ano passado e que muito chama a atenção. Não tem exatamente o perfil das redes sociais, mas é inteiramente focado na intercomunicação através dos continentes. Trata-se do Omegle (www.omegle.com, que também tem versão, paga, em aplicativo para o iPhone).
A premissa é bastante simples: sem precisar de cadastros, nem mesmo criação de senhas, o usuário entra no site, clica no botão de iniciar uma conversa e, anonimamente, é colocado em uma sala na qual passa a dialogar com alguém, qualquer pessoa, que também não se identifica.
Como em todo tipo de fórum na internet, muito do que se encontra no Omegle é completamente descartável, mas surpreendentemente, já desenvolvi diálogos bastante interessantes e que têm me ajudado a conhecer mais sobre pessoas e costumes ao redor do mundo.
Uma dessas experiências se deu com uma jovem garota (17 anos, ao menos alegados) de Hong Kong.
Uma dessas experiências se deu com uma jovem garota (17 anos, ao menos alegados) de Hong Kong. Claro, não é possível tirar nenhum tipo de conclusão definitiva de uma conversa que começa no anonimato e não se estende além do site, mas é factível observar ideias, tendências e, assim, se aproximar um pouco de como um adolescente asiático, chinês, que podia ter poupado sua identidade, se mostra para fora de seu país.
A princípio, ela, que pareceu espantada quando eu disse que havia estado lá a passeio e não a negócios, não queria se apresentar, mas, após algum tempo disse a idade e onde estava (nada além disso). Perguntei o motivo de não querer falar e a resposta foi bastante curiosa: “as pessoas não gostam da China, não sei porque”. A garota foi além, chegou a pedir desculpas.
É possível ter uma ideia do que acontece. O Omegle, na sua maioria (pelas experiências que eu tive), é frequentado por estadunidenses. Se o conflito entre China e Estados Unidos já é escancarado publicamente, com ambos os governos se declarando a respeito de maneira aberta, o que dizer, então, do que pode ser falado com a proteção do anonimato? O que já não deve ter ouvido a jovem de Hong Kong, quando revelou sua origem para algum garoto norte-americano que acabara de ver algum noticiário ou filme alertando sobre um forte competidor?
Está aí, também, outra questão que mostra como China e Hong Kong, apesar de terem um discurso de unidade, funcionam de maneiras diferentes. Enquanto a ilha é aberta a todo o conteúdo ocidental (o que, invariavelmente, acaba incluindo uma agenda pró-Estados Unidos), o continente não se furta em obstruir o que considera inapropriado pelos seus termos.
Um exemplo recente dessa questão é a restrição da exibição do filme Avatar (no qual uma minoria enfrenta forças majoritárias) nas salas chinesas. A partir de determinada data, apenas as cópias 3D (mais caras e com menos sessões) da película que mais arrecadou na história do cinema, foram permitidas. As outras salas receberam uma produção nacional, a cinebiografia de Confúcio. Possivelmente, um programa mais interessante do ponto de vista cultural, mas, que não pode ser sobreposto à liberdade de os chineses assistirem o que quiserem.
O fator Google
A rivalidade entre China e Estados Unidos é cada vez mais latente e chegou a grandes alturas com acontecimentos recentes. Tudo começou quando, no começo de 2010, o Google declarou que contas de e-mail de ativistas de direitos humanos foram atacadas, ao que tudo indica, por ações que partiram da China.
Hoje o gigante da internet, praticamente uma entidade onipresente na rede mundial, é, sim, símbolo da mão dos Estados Unidos sobre o mundo.
Em primeiro lugar, é difícil discordar de que hoje o gigante da internet, praticamente uma entidade onipresente na rede mundial, é, sim, símbolo da mão dos Estados Unidos sobre o mundo. E mais, a presença do conglomerado on-line na vida do internauta é consentida, cada pessoa que dá início à sua conta do Gmail sabe (ou deveria saber, se lesse as condições do contrato) que o Google se dá ao direito de acessar o conteúdo que está lá, caso seja necessário. O que não impede a maioria dos usuários da rede de fazer seus logins em cada produto que a companhia lança.
Um “império” com essas proporções e com tamanho nível de controle sobre a informação pode soar como ameaça. Não é de se duvidar que venha daí todos os problemas de relacionamento que o Google tem com o governo chinês, que culminaram com a ameaça (não confirmada e, aparentemente, já esquecida) de a companhia norte-americana encerrar suas atividades na China, o que não seria interessante nem para ela - que tem 30% do gigantesco mercado do país - e nem para os asiáticos, que teriam que lidar com a sua população procurando maneiras de burlar as barreiras às suas caixas do Gmail.
Tanto a ameaça do Google quanto a própria querela com a China já não repercutem tanto agora, porque a questão já está há tempos no campo político. A mais contundente demonstração veio em janeiro, quando Barack Obama, no State of the Union, incluiu no seu discurso a necessidade de enfrentar a China. Para muitos, foi apenas outro aceno do presidente norte-americano ao populismo, para onde precisa se voltar, por estar perdendo popularidade de maneira muito rápida. A análise não está errada, mas há bem mais por trás, e é provável que o Partido Comunista esteja preparando uma resposta à altura.
Zàijiàn!
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