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China - Culture

A mídia ocidental antes do 8.8.08

Por ocasião das Olimpíadas de Beijing, Marcus Benedicto fala da liberdade de imprensa e de como a China, segundo ele, está em falta com seu povo no que concerne o fluxo de notícias a respeito dos acontecimentos dentro do próprio país. De São Paulo.

O jornalismo é uma profissão que, pode-se dizer, é aprendida na prática. O que não significa que a faculdade seja descartável. Pelo contrário, o ambiente acadêmico é parte importante da formação porque mostra os conceitos básicos. Dentre eles, um dos mais importantes é aquele que diz que um bom repórter deve sempre ir atrás dos dois, três, quatro ou quantos lados forem relacionados a uma história.

A vivência nesse meio também mostra que, muitas vezes, essa questão primária do jornalismo é influenciada por uma série de fatores, sejam eles positivos ou negativos, financeiros, políticos ou ligados a qualquer outro tipo de poder. Observar os acontecimentos na China nos meses que antecederam as Olimpíadas, e a maneira como foram noticiados no Ocidente, é um bom exercício para perceber como o conceito de ouvir a todos os lados tem sido aplicado.

Não foram poucas as notícias, especialmente as más, que a China proporcionou no ano em que sediou uma das mais significativas Olimpíadas dos tempos modernos. A lista tem enchentes, terremotos, monges protestantes e militância internacional contra o regime do Partido Comunista. Todos elementos que, curiosamente, eram vistos com uma certa parcela de positividade por lá. Supersticiosos, como provavelmente nenhum outro povo, os chineses acreditam que tragédias antecedem coisas boas. Sendo assim, apesar de todo o sofrimento que as questões acima trouxeram, havia no país um sentimento de que os Jogos Olímpicos se sairiam bem.

Supersticiosos, como provavelmente nenhum outro povo, os chineses acreditam que tragédias antecedem coisas boas.

Voltando ao assunto principal, é possível fazer uma breve análise sobre o noticiário de dois dos fatos citados acima: a turbulenta volta da tocha olímpica ao redor do mundo, especialmente na sua passagem pela Europa, e a insurgência dos, aparentemente, pacíficos monges tibetanos.

Os problemas no Tibet foram o início de tudo. Em março deste ano, começaram a surgir na imprensa ocidental notícias de que os habitantes deste local, há décadas parte da China, protestavam contra o governo. A principal motivação eram os 49 anos do levante de Lhasa, que culminou com a saída do Dalai Lama, o líder espiritual dos tibetanos, do país. Há anos, ele vive na vizinha Índia.

Os textos e imagens que chegavam para este lado do mundo, sempre com a rubrica das famigeradas (ou essenciais) “agências internacionais”, focavam o exército chinês nas ruas do Tibet, monges se reunindo para protestar e sendo levados presos e, em momentos mais chocantes, apesar de não tão incomuns, pessoas ateando fogo em si mesmas. 

A pergunta é: quantos líderes chineses apareciam dando depoimentos? Sob que circunstâncias o outro lado da moeda era apresentado? Existem sim, informações creditadas a agências oficiais, mas são poucas, seja porque não foram procuradas, por terem se recusado a falar sobre o assunto (o que não é difícil), ou pelo simples fato de que quem produziu aquele material, por algum motivo, não achou interessante colocá-los lá. O que fica gravado na retina, dessas imagens, é sempre o sofrimento do suposto elo mais fraco.

Se para um jornalista do Brasil já é difícil buscar o noticiário da China para ter uma versão diferente dos acontecimentos, para os “leigos da notícia”, a missão é ainda mais improvável de ser levada adiante. 

Visitando a China poucas semanas antes das Olimpíadas, porém, tive a oportunidade de entrar em contato com dois nativos e conhecer pontos de vista interessantes sobre a questão. Um, de uma jovem residente em Beijing, Annie. Outro, vindo de um homem que trabalha para o governo chinês, morador de Shanghai, Jack. Os nomes são fictícios, para preservá-los. Esse é um assunto um tanto delicado por lá. Apesar da curiosidade jornalística, estava evitando entrar nessa conversa. Mas ambos se manifestaram voluntariamente.

O Tibet é, sim, parte da China, desde que há anos recorreu à terra-mãe em busca de proteção contra ataques de povos vizinhos.

Um ponto em comum: o Tibet é, sim, parte da China, desde que há anos recorreu à terra-mãe em busca de proteção contra ataques de povos vizinhos. Fora isso, a discordância é total. Enquanto Annie chegou a pedir desculpas pelos acontecimentos, Jack creditou os protestos a terroristas e mostrou um discurso bem antiimperialista: “Peça para os americanos, que tanto falam, virem visitar o Tibet. Vejam se o povo não está satisfeito. Nós construímos para eles a mais cara estação de trem do mundo, mas só os turistas a usam”. Pergunto se o local não está fechado pela China. “Não, você pode ir a hora que quiser. Todos lá têm liberdade de ir e vir”.

É verdade? É mais correto, ao menos, do que vinha sendo mostrado pela mídia? Não é possível dizer com precisão, esse é um trabalho que exige apuração mais profunda. De qualquer modo, é outro lado da história e precisa, no mínimo, ser ouvido.

A questão, então, desencadeou protestos na passagem da tocha pela Europa. O fato a ser observado, aí, é que a contextualização que a mídia fazia destes atos era quase sempre a da fragilidade do Tibet. Não que não fosse o caso. Mas faltou à imprensa humanizar um pouco a questão pelo lado do povo chinês, que aguardava as Olimpíadas com uma empolgação poucas vezes presenciada. Trata-se de uma população que, literalmente, parou o país para comemorar a indicação como sede dos jogos. Naquele momento, atacar as Olimpíadas era, mais do que atingir o governo, atingir os chineses. E certamente, grande parte deles discorda do Partido Comunista.

É curioso, porém, notar que o ditado “casa de ferreiro, espeto de pau”, sempre se mostra atual e oportuno. O mesmo casal de brasileiros residente em Shanghai, de quem já falei em outra oportunidade, contava sobre a experiência que teve, como pessoas que chegam na China sem conhecer muito bem o contexto e entram em contato com a imprensa local. Os veículos, quase todos do governo, mostram dados positivos, histórias de sucesso, pessoas felizes, tudo com o apoio constante do Partido Comunista. Ou seja, na imprensa chinesa, o outro lado da moeda, reivindicado para eles neste espaço até agora, também está em falta.

Zàijiàn! 

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