05.19.2012





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China - Culture
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Por dentro da China S/A

Marcus Benedicto compara o modo de se gerir uma empresa com os meios empregados hoje pelos policymakers chineses na condução da sociedade. O resultado contribui na elaboração e experimentação dos futuros processos decisórios. De São Paulo.
Quando pensamos em comunicação, o que logo vem à cabeça são aqueles modelos mais convencionais. Temos como exemplo, a televisão ou o rádio transmitindo uma notícia, uma manchete de jornal, a capa de uma revista, enfim, tudo relacionado às chamadas mídias de massa.

Comunicação, porém, é um conceito muito mais amplo. Basicamente, está presente em quase tudo no nosso cotidiano. Seja uma criança que chora para avisar a mãe de algo ou uma foto que busca causar choque, na parte de trás de uma caixa de cigarro. Está por todos os lados.

A questão é que, por ser algo tão abrangente e, basicamente, seguir os mesmos preceitos, é possível analisar a comunicação em grande escala tomando por base um universo menor. Mais especificamente, é interessante propor um exercício para tentar entender a comunicação entre o governo e a população de um país a partir do funcionamento de uma corporação. Vamos instituir, então, a fictícia China S/A.

A empresa opera em um modelo bastante verticalizado. Apesar de existir um bem definido sistema de hierarquia, as decisões saem praticamente todas do CEO, juntamente com a diretoria que lhe dá suporte. Sua palavra é final, incontestável. A comunicação é toda feita de cima para baixo e, se já é difícil para aqueles que ocupam algum cargo de gerência terem uma opinião, quem está em posições da base desse processo não tem chance alguma de se manifestar.

Existem, sim, meios de comunicação, como os boletins diários que circulam pela empresa. O problema é que o caráter das publicações é um tanto panfletário e os funcionários, boa parte deles, desconfiam que as informações, menos do que passar a real situação da China S/A, focam no que a diretoria julga mais interessante para manter a motivação. E, mais uma vez, não é exatamente um espaço para a livre manifestação de quem tenha interesse de fazê-lo.

Mas, a verdade é que o sistema funciona. A China S/A tem crescido de maneira sólida. Uma possível explicação é que, dado o enorme número de pessoas que estão na base, maior do que em qualquer outra empresa, a única maneira de controlá-las é impondo um comando assim, rígido, vindo de cima. E, a partir desse controle, se consegue a organização necessária para otimizar processos e crescer.

Dado o número de pessoas, maior do que em qualquer outra empresa, a única maneira de controlá-las é impondo um comando rígido.
Por outro lado, é possível assumir que ninguém melhor do que aqueles que executam o trabalho para saber o que está indo bem ou mal e como melhorá-lo. Desse modo, tudo não seria mais eficiente se o CEO da companhia abrisse canais de comunicação?

Tive a oportunidade, no final da faculdade, de passar por uma experiência parecida. Como trabalho de conclusão de curso, analisamos a comunicação de uma pequena empresa com todos os seus públicos. Lá, do mesmo modo como ocorre na China S/A, a comunicação era verticalizada. Havia um quadro de avisos e, se necessário, os coordenadores de cada área passavam informações, mais como comunicados, diretamente aos funcionários. Uma das principais constatações, portanto, era a necessidade de transformar aquela comunicação em uma via de duas mãos.

Essa tendência pode ser observada na comunicação como um todo. A Internet tem crescido e cada vez mais tomado o lugar dos meios de comunicação de massa justamente porque oferece a contrapartida de o receptor da mensagem poder dar uma resposta, poder interagir. Televisão, rádio e até as mídias impressas têm como abrir canais para seus telespectadores, mas não o fazem com muita freqüência e, quando o fazem, não conseguem ser tão eficientes quanto a web.

Quando falamos de uma empresa, são muitas as opções para dar voz aos funcionários, seja desde uma caixa para depositarem opiniões até mecanismos mais avançados que as intranets, presentes em quase qualquer organização, hoje, podem proporcionar. No caso de governantes e governados, porém, a questão é mais complexa. 

Tivemos no Brasil duas experiências recentes, uma que funcionou e conseguiu mobilizar boa parte do país e outra, tão relevante quanto, mas que não se mostrou tão eficiente.

A primeira diz respeito à polêmica sobre a permissão ou não de mães que estão grávidas de fetos anencéfalos (sem parte do cérebro, o que inviabiliza a vida) fazerem aborto. Apesar de uma decisão pela autorização já estar sendo formada, o Supremo Tribunal Federal organizou fóruns, com brasileiros que já enfrentaram o problema, médicos e até representantes religiosos (apesar de o Brasil ser um Estado laico) a favor e contra a questão. Algo parecido também ocorreu algum tempo antes, na discussão sobre o uso de células-tronco embrionárias para fins científicos. 
O importante é que um canal de comunicação da população com o governo foi aberto e quem tomar a decisão, o fará de maneira mais embasada.
O importante é que um canal de comunicação da população com o governo foi aberto e quem for tomar a decisão, agora, o fará de maneira um tanto mais embasada e consciente.

Por outro lado, quando o governo brasileiro decidiu fazer uma consulta pública sobre a melhor maneira de implementar as mudanças ortográficas do português (essas, ao contrário da permissão do aborto, atingindo o país inteiro), não foi muito bem sucedido. A comunicação foi aberta, via e-mail, mas talvez por falta de divulgação, teve apenas 12 respostas ao longo de três semanas.

Se experiências desse tipo funcionariam na China, é difícil dizer. Provavelmente, seja necessário algum tempo até que a população se adapte a um relacionamento assim. Ou pode ser o caso de se pesquisar mais a fundo para descobrir a que tipo de estímulo os chineses respondem melhor. Já é possível, porém, observar alguns costumes do país, como, por exemplo, o gosto pelo mundo virtual, e extrair algumas idéias. Não seria a Internet o melhor canal para começar a dar voz à população? Ou será que esse método excluiria uma parte grande demais dos habitantes da China?

De qualquer maneira, o ritmo de crescimento da China S/A, diante da crise econômica mundial, já diminuiu. Começar a dar ouvidos a quem está na base de fato, é um passo que o CEO deveria considerar.

Zàijiàn

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Marcus Vinícius Benedicto

Marcus Vinícius Benedicto

Communication advisor for TELEM, Brazil's greatest integrator for entertainment infrastructure, he has a Post-graduate Degree in Organizational Communications and Public Relations from Cásper Líbero University and Graduate Degree in Journalism from the São Paulo Methodist University. Has been studying Mandarin for 5 years.

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