China - Culture
Xining- Lhasa: um trem a 5.000 m de altitude
Susi Wang nos encoraja a embarcar numa viagem cheia de cultura, crenças e belas paisagens através da ferrovia que liga Qinghai ao Tibet. Uma estrada que é motivo de orgulho nacional e mais uma obra-prima da engenharia chinesa. De São Paulo.
Quer fugir dos roteiros convencionais? A boa notícia é que está cada vez mais fácil ir a lugares longínquos, onde até 2 anos atrás, pensaríamos duas vezes antes de comprar uma passagem, se é que existia transporte decente e a preço justo para chegar a estas regiões. Tudo tem mudado de cenário na China, por que a mudança não haveria de chegar na região chinesa autônoma e extremamente polêmica do Tibet?
O grande símbolo de que o desenvolvimento sócio-econômico chegou ao Tibet foi a construção e funcionamento da Ferrovia Qinghai-Tibet em 2006. Sua engenhosidade atingiu o padrão mundial de administração ferroviária. É a primeira a interligar a região conhecida como o Teto do Mundo aos principais centros econômicos e políticos chineses. O planejamento, a medição e o tracejamento do percurso começou logo após a constituição da República Popular da China, em 1949. Depois de construir o trecho que liga a cidade de Xining a Germu, a obra foi paralisada por restrições econômicas e técnicas. Paralelamente ao aumento do poderio nacional e da pesquisa científica, a construção da obra foi recolocada na agenda de trabalho. Em 2001, o governo chinês liberou 33 bilhões de yuans para executar a segunda fase das obras.
A região onde se localiza a Ferrovia Qinghai-Tibet é sujeita à neve o ano inteiro. Conseqüentemente, o solo sempre congelado, o ar rarefeito provocando falta de oxigênio, a forte radiação solar, a proteção ambiental e outras complexidades climáticas foram apenas algumas das dificuldades que tinham pela frente os construtores. Alguns especialistas estrangeiros chegavam a considerar a obra impossível de ser concretizada. Mas os chineses insistiram em realizar o seu sonho e todos os obstáculos foram superados.
O solo congelado, o ar rarefeito, a forte radiação solar e a proteção ambiental foram apenas algumas das dificuldades.
A ferrovia Qinghai-Tibet é uma obra sofisticada. O cronograma de sua Engenharia, Projeto e Construção incluiu a questão da proteção ambiental. Para proteger o ambiente ecológico ao longo da ferrovia, prática não vista com frequência e importância nas obras chinesas, técnicos chineses aplicaram pela primeira vez um sistema de fiscalização ecológica em toda a linha. A zona de proteção Kekexili, no entanto, é foco das atenções dos ambientalistas. A fim de garantir a imigração de antílopes tibetanos, os construtores da ferrovia criaram diversas trilhas de passagem para esses animais, para que vivam num ambiente harmonioso. O problema de solos gelados foi resolvido aplicando tecnologias novas e uma série de medidas em sua construção, como por exemplo, utilizar colchão de pedra ou tábuas e tubos de isolamento térmico na base da ferrovia, além de construir pontes com base no fundo de mais de cem metros do solo congelado. Contra os efeitos do ar rarefeito, os técnicos estabelecerem para os construtores, estações de oxigênio e distribuíram máscaras e butijos de oxigênio, garantindo condições de vida e trabalho normais.
O desafio imposto aos planejadores da obra foi enorme; pois bem, o resultado dos esforços é ter hoje uma ferrovia considerada uma das mais extensas do mundo, com 1.956 quilômetros, começando da cidade de Xining, capital da Província de Qinghai, e terminando em Lhasa, capital da Região Autônoma do Tibet. Por ter a maior parte de seus trilhos assentada acima dos 4.000 metros de altura e alguns de seus trechos a 5.072 metros, sendo classificados como "os mais próximos do céu", ela também é considerada a mais elevada da Terra. Como a ferrovia que atravessa o maior número de quilômetros de solos perpetuamente gelados do planeta, percorrendo cerca de 550 quilômetros desse tipo de solo, e que tem o túnel mais elevado, o túnel ferroviário mais extenso, a estação e a base de construção ferroviárias mais elevadas, a ponte mais extensa em solos gelados e a mais alta velocidade em solos gelados do mundo, os técnicos foram obrigados a empregar diferentes equipamentos e tornaram-se uma referência mundial nesse tipo de construção.
O Tibet recebeu 4 milhões de turistas internos e estrangeiros em 2007, 1 milhão acima do esperado, com crescimento de 60% em relação a 2006.
Desde a inauguração da Ferrovia Qinghai-Tibet em 2006, foi dado um grande impulso à indústria turística local. Dados oficiais informam que o Tibet recebeu 4 milhões de turistas internos e estrangeiros em 2007, 1 milhão acima do esperado, com crescimento de 60% em relação à 2006. Mesmo com o fechamento temporário do Tibet devido às manifestações e repressões sangrentas contra o domínio chinês, em 2008, 5 milhões de turistas são esperados no território. O plano de desenvolvimento local, que antes era conservador, vem sendo pressionado para reajustar seu planejamento de forma mais oportuna, uma vez que o fluxo de turistas excedeu o objetivo de turismo para o ano de 2010. Razões? O trajeto da ferrovia é lindo, cheio de mirantes no meio do Himalaia, coberto de neve, permite entrar em contato com pólos turísticos e conhecer a “construção verde”. Além da beleza das paisagens, a ferrovia carrega grande expressão de desenvolvimento ecológico, social e econômico sustentável da China. É um exemplo bem sucedido de uma estrada de ferro que pode ser seguido por outros países.
O percurso conta com um “Programa do Desenvolvimento Turístico ao Longo da Ferrovia Qinghai-Tibet", criado pelo governo para beneficiar e ativar o turismo pelo uso da ferrovia. Você encontra lugares como o lago Qinghai, com lagoas, pradarias, montanhas nevadas e trechos de deserto, paraíso de fotógrafos e pintores de nascer-do-sol, beleza do meio-dia e o azul do pôr-do-sol. A província de Qinghai é um brilho no platô noroeste da China, onde o rio de Yangtze, o rio amarelo e também o rio de Mekong, nascem.
A ferrovia também passa pelo Palácio Potala, situado na Montanha HongShan, em Lhasa. Imponente, rico em arquitetura tibetana e antiga residência do Dalai Lama, hoje é o símbolo do Tibet. Construído e restaurado por 1.500 artistas, é um museu que traz artefatos, estátuas, capelas e relíquias que contam seu passado e suas crenças. A espiritualidade, história e sabedoria são inerentes ao destino final da ferrovia. Para quem gosta de explorar rotas ricas de cultura e alternativas, esta não pode ficar de fora. Vá antes que a cultura ocidental invada e tome conta, mais uma vez, da tradição.