China - Culture
A culinária chinesa e a sua influência no mundo (2)
Ming Tsung Wu desmistifica a ideia que se tem no Ocidente de que na China não se come bem, ou que lá se serve apenas ratos, cobras e outras iguarias tidas como “nojentas”. Através de um amplo arcabouço histórico, ele prova o contrário. De São Paulo.
Quando grandes redes de fast-food ocidentais se espalham pelo mundo, reparamos que restaurantes chineses de entrega rápida também estão tomando todas as grandes cidades e fazem parte da refeição de milhões de pessoas fora da China.
Mas esse processo de “orientalização” não foi nada fácil, e a culinária chinesa precisou de séculos até conquistar o estômago de muitos. No início, a falta de informação, a diferença no preparo e no uso de ingredientes e a mistificação de alguns casos, criaram uma imagem errada. A superioridade dos ocidentais, de se acharem cultos diante do mundo, fez a culinária chinesa ser algo apenas exótico e estranho para o mundo ocidental.
Não temos como saber exatamente quando foi o início desta influência. Mas, desde o banquete luxuoso em que Marco Polo participou em Hangzhou, até as refeições do dia-a-dia dos missionários cristãos na China do século 18, podemos observar alguns pontos: a falta de higiene e alguns costumes locais de comer carne de cachorro, gato, rato, cobra e escorpião, etc., levaram os estrangeiros de primeira viagem à China a sentir medo e nojo. Essas observações limitadas e a falta de um olhar geral e mais cuidadoso sobre a China como um todo, geraram o início de uma visão errada sobre a comida chinesa. Sendo um chinês que vive num país como o Brasil, posso perceber que a ignorância e discriminação em relação ao assunto são ainda maiores.
Até hoje, no século 21, podemos perceber quantas pessoas não conhecem os verdadeiros e autênticos pratos chineses.
Em 1793, o inglês George Macartney chegou à China com a missão de abertura dos portos e estabelecimento do livre comércio entre a China e a Inglaterra. Mesmo o imperador Qianlong tendo recusado a proposta, a comissão foi recebida pelos oficiais das cidades em que passavam. Pela primeira vez, os estrangeiros experimentaram o que é uma comida chinesa bem feita e bem servida. Os oficiais chineses, reparando que os ingleses colocavam leite no chá, tiveram o cuidado de enviar duas vacas leiteiras a bordo durante suas viagens pelas costas marítimas da China.
Depois da primeira Guerra do Ópio, as portas da China se abriram para o mundo. Cada vez mais estrangeiros como comerciantes, missionários e aventureiros, chegavam à China. Quase todas as cartas e livros que eles escreveram mostraram interesses sobre a culinária chinesa. Mesmo controvérsias, elogios e críticas não os atrapalharam a usar os palitos para comer na China.
Em 1848, o botânico inglês Robert Fortune chegou à China em busca de melhores ervas de chá. Quando foi visitar algumas fábricas de chá chinesas, tomou um susto ao ver os chineses usando cal e corante para deixar mais uniformes as cores da erva de chá para exportação. Os próprios chineses não tomavam esse tipo de chá, mas era bem aceito no Ocidente, porque parecia mais “natural”. Robert Fortune diz então “É tão irônico isso! Apesar de os povos dos países cultos terem dó pelo fato dos chineses ainda comerem bichos de estimação, eles preferem tomar chá com corante em vez do chá natural”
O cenário mudou bastante entre os anos 1900 e 1949. Neste período, a comida chinesa já tinha bastante fãs ocidentais.
Entre eles, missionários e jornalistas que passaram a amar a cultura chinesa ao morar no país, e mesmo escritores e oficiais que ficaram por pouco tempo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a China lutou junto com Estados Unidos e Inglaterra, e a amizade entre os países fez com que o intercâmbio cultural aumentasse consideravelmente. Desta forma, muitos estrangeiros passaram a gostar da comida chinesa. No mesmo período, os chineses que se espalharam pelo mundo por causa das guerras, começaram a levar seus costumes alimentares aos lugares em que ficavam. Como o comércio era mais difícil por causa da barreira de língua, muitos abriram restaurantes chineses.
O missionário alemão Richard Wilhelm, famoso por sua contribuição com livros sobre a China e traduções de livros clássicos chineses como I Ching e Tao Te King para o alemão, fala em seu livro “Die Seele Chinas” que o oriente ensina para o mundo “o que comer e como comer”.
Outras personagens também contribuíram para espalhar a culinária chinesa pelo mundo, entre elas, o poeta inglês William Empson, o escritor inglês Wystan Hugh Auden, a escritora americana Pearl S. Buck e a jornalista americana Emily Hahn. No período em que ficaram na China, aprenderam a gostar da cultura e conseqüentemente da comida, colocando o costume alimentar dos chineses em suas obras, para que todas as pessoas do mundo pudessem conhecê-lo melhor.
Do choque cultural e intercâmbio, até a aceitação e conquista da culinária chinesa no mundo, passaram-se séculos. Para os ocidentais é simplesmente algo exótico do oriente, para os chineses são sabores existentes na comida, misturando azedo, salgado, apimentado e amargo.
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