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India - International Relations

A Ásia em uma ordem mundial em transição

Sandra Cardozo analisa a nova configuração do poder global dando destaque aos papéis que China e Índia têm exercido. Se os EUA estão em trajetória de decadência, os países emergentes terão de preencher esse vácuo a ser deixado na Ásia. De Campinas.
A configuração do poder mundial sempre esteve no centro das análises das relações internacionais. Durante mais de cinqüenta anos o foco da maioria das abordagens sobre estrutura do poder mundial teve como parâmetro a bipolaridade entre os Estados Unidos e a URSS. Após o término da Guerra Fria, que enquadrava a rivalidade entre americanos e soviéticos, vários questionamentos vieram à tona sobre não somente o futuro dos países ex-socialistas e a Rússia em específico, mas também se os Estados Unidos seriam a única grande potência mundial. 

De uma forma mais simples, sem análises acuradas, pode-se dizer que o período caracterizado como bipolaridade enredou uma lógica à dinâmica das relações entre os países. Os conflitos eram localizados entre as disputas ideológicas das duas grandes potências. Os tratados, as alianças e mesmo as guerras, deflagradas na periferia do sistema mundial, tinham um vínculo maior com as potências, como foi o caso da guerra do Vietnã e a invasão da União Soviética no Afeganistão, entre outros episódios.

Contudo, a ausência deste modelo bipolar nas análises da política mundial após a Guerra Fria estimula várias interpretações sobre o papel dos Estados Unidos, que logo após a queda da União Soviética foi dado como a única superpotência mundial. Neste contexto, a Ásia aparece como uma área que não pode ser desprezada, visto que o expressivo crescimento econômico de China e Índia, na última década, revela a importância destes e outros países asiáticos na economia mundial. Não somente os aspectos econômicos, mas os arsenais militares de que dispõem China e Índia dão, notadamente, expressão de poder a ambos países e ao continente.
Não somente os aspectos econômicos, mas os arsenais militares dão, notadamente, expressão de poder a ambos países e ao continente.
A China tem um lugar especial, pois vem exercendo um papel importante na estabilidade regional e é vista como um poder em ascensão que pode alterar a balança global de poder. A Índia, que passou por mudanças e efetuou reformas econômicas a partir da década de 1990, também é tida como um poder em ascensão, além de superar atritos que existiam com a China. O papel dos Estados Unidos no mundo depende de suas relações com estes países em vários aspectos, como o econômico, o militar e até mesmo o “combate ao terrorismo”. Estes fatores demonstram que o balanço do poder mundial perpassa pelo balanço de poder na Ásia. 

Ainda sobre os Estados Unidos, há opiniões diversas que vão desde o reconhecimento de uma unipolaridade de poder mundial - tese cada vez com menos força, mas que teve grande repercussão na dedada de 1990 – às visões menos otimistas do papel de superpotência que o país encabeçou.

Sobre este aspecto de transição do poder mundial, há interpretações que se orientam por acontecimentos históricos e revelam que a ordem mundial já passou por várias transições hegemônicas e que estaríamos vivendo mais uma transição deste tipo, com a perda pelos Estados Unidos da concentração dos poderes militares e econômicos. Esta linha de análise(1) expõe que existe um padrão, ocorrido nas sucessões hegemônicas, que parte de uma expansão financeira sistêmica impulsionada por um Estado hegemônico, que ao entrar em crise abre uma escalada da luta do poder entre as nações possibilitando a ascensão de outro Estado mais poderoso, não só militarmente, mas também financeiramente. Em termos concretos, os Estados Unidos estariam deixando de ser uma potência hegemônica, mas com uma particularidade, visto que, apesar de estar perdendo o poder econômico, ainda mantém o poder militar. 

A Ásia - que sempre teve papel importante para as potências hegemônicas fornecendo recursos - estaria hoje, a partir da ascensão do Leste asiático como o centro mais dinâmico de processos de acumulação de capital em escala mundial, exercendo papel crucial para a economia política global, com vantagem competitiva e custos de reprodução e proteção comparativamente baixos.

Dentre uma multiplicidade de abordagens, existem algumas que denunciam que os Estados Unidos estão negligenciando os desafios que a Ásia estará impondo até metade do século XXI. Esta interpretação(2), por exemplo, acredita que há uma canalização de toda a capacidade e recursos intelectuais norte-americanos numa guerra contra o terrorismo, fator que coloca em risco a permanência dos Estados Unidos como nação preponderante no mundo. No entanto, como sugerem, o grande desafio não se encontra no terrorismo, mas na colisão de interesses entre Estados Unidos e poderes emergentes como China e Índia. Assim, seria necessário, por parte dos Estados Unidos, recalcular e reorganizar as perspectivas estratégicas, pois os eventos no Oriente Médio, Sul da Ásia e Leste Asiático são importantes pelo que podem demonstrar aos líderes norte-americanos. Estes elementos demonstram, portanto, como a Ásia está retornando ao ponto focal do mundo da política internacional.
Alguns sugerem que o desafio dos EUA não se encontra no terrorismo, mas na colisão de interesses com emergentes como China e Índia.
Na análise acima exposta, os grandes desafios para os Estados Unidos seriam a Índia e China. Mas a grande apreensão remete-se mesmo ao crescimento chinês, pois se hoje o desafio é pequeno, as projeções indicam que entre 2025-2035 a China poderá alcançar, em termos de termos de PIB, os Estados Unidos(3)

A presença norte-americana na Ásia no período da Guerra Fria foi constante e a balança de poder no continente era definida através das relações norte-americanas com os países da região, como os acordos feitos com o Paquistão e aproximação da China nos anos de bipolaridade mundial. Dentro destes fatores, pode-se imaginar que a aproximação dos EUA com a Índia e a tolerância norte-americana ao poderio militar nuclear deste país, almeja a contrabalançar a China como uma possível superpotência. 

Diante das inúmeras análises, não somente as sucintamente expostas aqui, é possível afirmar e ser partidário a uma questão específica: quando se fala em declínio dos Estados Unidos, se fala do papel proeminente dos países da Ásia, e da China e da Índia, em particular.

Notes:
(1)
Neste caso, a referência é de Arrighi, Giovanni; Silver, Beverly J. Caos e governabilidade no moderno sistema mundial. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora UFRJ, 2001.
(2)Esta interpretação é de Tammen, Ronald L. The impacto of Asia on world politics: China and India options for the United States. International Studies Review (2006) 8, 563-580. (3)As estimativas apresentadas por Tammen sugerem que a China alcançaria os EUA até a metade do século e a Índia chegaria aos patamares de poder dos dois outros países no final do século XXI.
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