China - Economics
Como os brasileiros vêem os produtos chineses?
Marcus Benedicto faz um paralelo entre a imagem que os produtos “Made in Paraguai” e “Made in China” têm no Brasil. Ele comenta também sobre o desenvolvimento tecnológico chinês e o mercado de produtos com maior valor agregado. De São Paulo.
Zapeando pelo noticiário noturno, há algumas semanas, me deparei com uma reportagem sobre a prisão de uma quadrilha que fraudava licitações de hospitais públicos. Os criminosos vendiam aparelhagem de baixa qualidade para instituições governamentais de saúde em troca de notas (e pagamentos) polpudas.
Em dado momento, foi exibida uma gravação originada de um grampo que a Polícia Federal aplicou em membros do grupo em questão. Entre um e outro acerto do esquema, alguém mencionou um certo “equipamento chinês vagabundo”.
Essa pesada expressão leva a uma reflexão. Como os produtos chineses, no geral, são vistos no Brasil? Não é preciso ir muito longe para perceber que a resposta não é muito positiva.
Logo de início há, de fato, um ponto a favor: o preço. As mercadorias chinesas, de maneira geral, são muito mais baratas do que as opções de marcas famosas. Essa diferença de valor, contudo, costuma ser equivalente à qualidade e o tempo de duração do produto. Desse modo, não é raro ver alguém dizendo “ah, só podia ser chinês” quando vê sua compra se estragar em questão de meses, semanas ou, até mesmo, dias.
Não é raro ver alguém dizendo “ah, só podia ser chinês” quando vê sua compra se estragar em meses, semanas ou, até mesmo dias.
Essa questão, curiosamente, é reflexo de um dos maiores atrativos comerciais da China: a mão de obra barata e o baixo custo de produção. Milhares de contêineres com mercadorias de baixo valor agregado deixam o país mensalmente. Proporcionalmente, aumenta o número de clientes insatisfeitos e de recalls de produtos defeituosos. De tempo em tempos, o governo anuncia algumas medidas visando aumentar o rigor na inspeção daquilo que a China produz. No geral, são ações paliativas. Até porque, se as mercadorias têm problemas, o mesmo não se pode dizer da demanda por elas.
Observando toda essa movimentação, é possível chegar a uma conclusão intrigante. A cada radinho que queima em questão de horas ou guarda-chuva que enferruja após três garoas, a China se aproxima mais de um posto não muito agradável: os asiáticos estão se tornando o novo Paraguai. Até então, os vizinhos de América do Sul eram a “referência” no que diz respeito a produtos falsificados ou pirateados. Não raro, ouvíamos expressões como “comprou onde esse relógio paraguaio?”. Hoje, já está ficando mais comum ouvirmos não só que o relógio é chinês, como, também, que não vai durar quase nada.
Alguns desses estereótipos são reforçados pelas novelas, produtos de alto alcance popular. Tanto a China quanto a Índia, os temas que motivam as discussões do Watershed, são também os assuntos principais de um folhetim que está no ar na Rede Globo e outro que está por vir, na mesma emissora.
Coube aos indianos, porém, a parte mais “correta” da história. Intitulada Caminho da Índia, a novela, pelo menos a princípio, não parece de maneira alguma depreciar o país. A autora, Glória Perez, costuma, inclusive, retratar de maneira até ampla, a cultura e os costumes das nações nas quais ambienta suas obras.
Já não é possível dizer o mesmo de Negócio da China, esta já em exibição. Não acompanho o programa, mas já vi chamadas nas quais o aparentemente único personagem chinês é retratado como alguém, no mínimo obscuro. Ao que parece, também, a novela até começou na China, mas agora é toda ambientada no Brasil. No mínimo, pode-se dizer que está sendo desperdiçada a chance de transmitir um pouco dessa rica cultura oriental.
Retomando a questão inicial, é preciso observar, porém, que nem tudo o que a China produz é de baixo custo e qualidade. O país tem tido um significativo crescimento ao redor do mundo em mercados como o de informática e o de aparelhos de ar condicionado, por exemplo.
Reverter a má imagem formada durante anos não é fácil, é necessário um intenso e árduo trabalho de reposicionamento.
E é justamente aí que as empresas chinesas devem focar sua comunicação com os consumidores, no Brasil. Reverter a má imagem formada durante anos não é fácil, é necessário um intenso e árduo trabalho de reposicionamento. Contudo, é preciso trabalhar, também, uma estratégia para as mercadorias de baixa qualidade.
Um caminho, talvez, seja caracterizá-las como segunda, terceira ou quarta linhas de produtos. Caso contrário, restará à China esperar que algum país a substitua, como fez com o Paraguai. A julgar pelo atual aspecto da economia mundial, porém, dificilmente alguém consegue bater o gigante asiático, seja qual for o setor.
Em tempo
Na última edição do Watershed, falei sobre como a China impõe barreiras para a entrada, em seu território, de produtos com tecnologias que, de alguma forma, ameacem sua soberania sobre a informação que circula lá dentro.
Mencionei o caso do iPhone, o celular da Apple que é sensação mundial mas que, na sua versão 3G, teria que ter essa função, entre outras, desativada para operar na China. Se havia dúvidas sobre o poder do mercado consumidor chinês, elas acabam de, ao menos, diminuir. A gigante norte-americana abriu uma vaga de emprego para Engenheiro de Controle de Qualidade/Gerente para o iPhone, com base em Shangai. Ao que tudo indica, em breve, o país asiático terá mais uma opção de telefone com touchscreen. Ponto (bilhões deles) para os chineses.
Zàijiàn
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