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China - Culture

A expansão das universidades chinesas

Liu Bin reflete sobre o papel da educação e a expansão das universidades na China, um processo que, como no Brasil, apresenta enormes desafios e amplas oportunidades. A autora analisa os aspectos positivos e negativos deste crucial tema. De Beijing.

Falando sobre as instituições de ensino superior chinesas, não tem como não falar de um tema controverso nos últimos 10 anos: a expansão no vestibular e a admissão no ensino superior. Recentemente, mais uma vez apareceram na mídia discussões sobre a questão dos colégios e universidades. Primeiro, o Ministério da Educação admitiu para a imprensa que a expansão na admissão nas faculdades foi muito rápida, resultando em aumento de dificuldades na obtenção, posteriormente, de um emprego. Em seguida, um porta-voz desmentiu a declaração, dizendo que ela teria sido um mal-entendido. Na verdade, o tema é discutido há bastante tempo. Muitos estudiosos, especialistas e estudantes universitários, junto com a mídia, promovem acalorados debates sobre os prós e contras da expansão, até os dias de hoje. Vamos primeiro olhar brevemente a situação das instituições de ensino nos últimos 10 anos.

A expansão em grande escala teve início em 1999, quando os matriculados em faculdades e universidades somavam 1,6 milhão, um aumento de 520.000 pessoas, ou 48% em relação a 1998. Desde então, a expansão universitária atingiu 38,2% em 2000 e 13,3%, em 2001. Em 2002, essa taxa caiu para 10%, um equilibrío relativo mas, mesmo assim, pelo quarto ano consecutivo de expansão, o número real de candidatos em 2002 era 2,5 vezes maior do que em 1998. Em 2008, o número de estudantes universitários chineses atingiu 5,9 milhões de pessoas, dos quais 3 milhões na graduação nas universidades e 2,9 milhões no ensino superior nas faculdades, 320.000 pessoas a mais do que no ano passado, um aumento de 5%. Já na pós-graduação, o número foi de 449.000 alunos, dos quais 59.000 pertenciam ao doutorado e 390.000 ao mestrado, um crescimento de 6%.

A partir de 1998, 1,08 milhão de candidatos; até 2008, 6 milhões de candidatos. Uma velocidade e uma escala de expansão assim devem ser raras. Bem, e sobre os prós e contras que estas trazem?

Falemos primeiro do lado bom.

1- Aumento da taxa de escolaridade, possibilitando o sonho da faculdade para muitos. Sob a era da economia planejada, o Estado pode atribuir aos formandos trabalhos chamados de “tigela de arroz de ferro”. Entrar na faculdade significa ter trabalho, as pessoas pensam que o vestibular é a melhor saída, talvez a única maneira, de sair da roça. Ter estudo é igual a ter uma fonte de trabalho, é uma idéia disseminada por milhares de anos, e a economia planejada reflete bem essa visão. Com a rápida expansão, a taxa de escolaridade continua subindo e o nível das instituições de ensino superior caindo; assim, entrar em faculdades e universidades já não é uma tarefa difícil. 

2- Melhora da qualidade do povo e da qualificação dos cidadãos, além de redução do gap entre o nível de ensino da China e o de outros países.

3- Adiamento do período do primeiro emprego e alívio da pressão. Com o pico da taxa de natalidade dos anos 80, a população em faixa etária universitária hoje é grande. 

Com a expansão, as pessoas podem permanecer na escola e reduzir o atual número de empregos, reduzindo a pressão do mercado de trabalho.
4. Desenvolvimento econômico e estímulo à demanda interna, pois nos últimos anos o país entrou em um período de desaceleração do crescimento, em especial afetado pela crise financeira asiática, resultando em um mercado fraco, desaparecimento do consumo aquecido e pouca oferta no ensino superior. Com o desenvolvimento, os padrões de vida do povo tornaram-se cada vez mais altos. Como resultado, estudiosos pediram para que o desenvolvimento do ensino superior da China seja uma dimensão importante no estímulo à demanda interna, promovendo uma aceleração e uma nova linha para o crescimento. A implementação desta política de ampliar e desenvolver o setor da educação elevou a qualificação dos trabalhadores, impulsionada pelas indústrias relacionadas à área.
 
5. O salto no estágio de desenvolvimento da educação. O sociólogo americano Martin Trow, da Universidade de Berkeley, professor nos Estados Unidos e em países da Europa Ocidental em desenvolvimento do ensino superior no pós-guerra, classifica a educação em três fases: elite, pública e popular. Como resultado, a China, com a larga escala de expansão e atualização das suas instituições, tem plenas condições de propiciar educação aos jovens da faixa etária mais revelante. 
 
Vamos olhar para os fatores desfavoráveis trazidos pela expansão:  
 
1. A reforma da "educação de elite" e da "educação popular" levou os universitários a misturarem o bom e o mau, desnivelando a qualidade dos estudantes e aumentando os problemas sociais. Obviamente, algumas pessoas podem pensar que isto não esteja necessariamente relacionado à expansão. No entanto, creio que esta foi a porta de entrada de alunos de baixa qualidade na escola, devido à dimensão da universidade, aos problemas de gestão, à falta de educação e à moral distorcida, entre outros. Após a expansão, aumentou-se o número de pessoas que só querem diplomas, apresentam comportamento moral duvidoso, são irresponsáveis e não têm intenção de estudar. Tudo isso culminou em gastos crescentes e aumento das tensões provocadas pelas propinas escolares. Como os subsídios e concessões de combate à pobreza foram se tornando escassos e estudantes de famílias pobres têm de sair para trabalhar, a tentação de praticar uma grande variedade de violações só tende a aumentar. A educação no campus, a moral, a cultura e o ambiente sofrem fortes influências.  
 
2. Educação é uma questão difícil de gerir. Para a escola, a gestão se torna uma dificuldade diante da existência dos problemas expostos acima. Em vista disso, não tem como a escola deixar de controlar o dia-a-dia dos estudantes, da aprendizagem ao comportamento, induzindo a reflexão. A partir da escola, cria-se auto-aperfeiçoamento e autodisciplina, sistema incentivado por todas as escolas. Essa ideologia da educação entre os colégios e universidades tornou-se um alvo. O movimento de educação descendente necessita de fato de um conteúdo de ensino, a começar pelo ensino médio completo com foco na universidade. Após a expansão, com base em diferenças de aprendizagem entre alunos pobres, é óbvia a observação de um aumento significativo no número de repetentes. A fim de reverter este fenômeno, algumas escolas têm que mudar os programas educacionais e assegurar ensino-base normal, disciplina de estudo e reforços extra-classe. Isso significa que os professores terão suas cargas horárias acrescentadas. Outros aspectos, como a execução do planejamento acadêmico, o sistema de controle de qualidade, a reforma do sistema de exames, o corpo docente e a gestão, também necessitam de reformas. em diversos graus, pois já não conseguem atender a demanda das matrículas, impulsionadas pela rápida expansão. 
 
O planejamento, o sistema de controle de qualidade, a reforma do sistema de exames, o corpo docente e a gestão, necessitam de reformas.

3. Com a expansão, foi criada uma crescente pressão com relação a assuntos ligados à educação, como por exemplo, os recursos pedagógicos. Atualmente, apesar do aumento dramático no número de estudantes universitários, as salas de aula, laboratórios e até mesmo playgrounds e áreas para atividade não acompanharam a evolução. Em função da quantidade de orientadores, os pesquisadores científicos também são limitados para desenvolver seus projetos. Não é difícil de se ver desaparecerem rapidamente livros novos e velhos das prateleiras nas bibliotecas.

4. Para os estudantes, a pressão por um emprego tem aumentado relativamente. Devido à baixa qualidade do ensino, os empregos têm sido cada vez mais exigentes, dificultando a procura. Devido a uma significativa expansão das vagas nas faculdades e universidades nacionais, a questão de emprego dos alunos está ficando grave e, assim, cada vez mais e mais estudantes escolhem continuar estudando. 

5. O nível do ensino na gradução foi reduzido, assim como o ensino considerado de “ouro” do doutorado. A expansão da educação e do conhecimento levou ao desemprego e, por sua vez, a taxa de desemprego promoveu uma nova expansão; assim, os licenciados trabalham cada vez mais, sem poupar esforços para expandir as inscrições para mestrados e doutorados.

6. As instituições educacionais de elite suportam a missão da popularização da educação. Na teoria, as elites das instituições educativas possuem formação teórica e acadêmica mais individualizadas; por outro lado, as instituições de ensino de massa são pragmáticas e técnico-profissionais. Para ambos os objetivos de formação, o conteúdo pedagógico e os métodos de ensino têm focos diferentes. Não há nenhuma vantagem para a elite das instituições educacionais carregarem para si a tarefa da educação popularizada. Pela experiência de outros países, geralmente, a elite das universidades não suporta a tarefa da educação popular. Algumas dessas instituições também lidam com a massa da educação e criam órgãos subsidiários, ou até mesmo desenvolvem o seu próprio modelo, como treinamentos em colégios e matérias multidisciplinares em institutos de tecnologia, como a Open University (universidades de curto prazo não são o caso, na China). Portanto, a popularização do ensino superior reduz a elite das instituições através da pressão e aumenta a necessidade de proteger a educação elitizada.  

Ao que parece, a expansão das faculdades e universidades é realmente uma faca de dois gumes: para melhorar a qualidade de todas as pessoas ao mesmo tempo, ela também trouxe uma série de questões complexas. Mas se olharmos globalmente ao longo de décadas, instituições de ensino superior afetadas pela expansão podem trazer real benefício a longo prazo. A chave é saber como se pode desenvolver a educação na cidade e resolver os problemas trazidos junto com ela. Claro que a universidade não pode ficar cega com a expansão, mas o aumento moderado dos estudantes universitários na China, considerando-se a proporção da população, é muito positivo.

Tradução: Wang San

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